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I’m looking through you… Where did you go? / Estou olhando através de você… Onde você foi?

Movido provavelmente pela onda de revival que Sex And The City me tocou em sua nova temporada, Just Like That, resolvi reassistir novamente a Antes do Amanhecer, que me levou até Antes de Anoitecer e, finalmente, em Antes da Meia Noite e como foi bom rever esses filmes anos depois, com tantos anos passados desde seu lançamento e inclusive desde que assisti… Me fez pensar sobre o que já havia escrito aqui no blog: relacionamentos e as idealizações. Mas dessa vez com outro viés: o que acontece depois que você encontra (e vive) seu grande amor? 

Jesse e Celine (e felizmente eu também) não são os mesmos jovens dos primeiros filmes. Eles já não aqueles jovens que se conheceram no vagão de um trem e tomaram a decisão de caminhar pelas ruas de Viena e por suas próprias vidas. Nem são mais os jovens adultos que se encontraram depois de tantos anos, com as marcas não só do que viveram entre eles, mas de suas outras relações. No último filme da trilogia eles são outros: eles estão ali, naquela relação que desejaram por tanto tempo. Provavelmente agora mais tempo juntos do que o tempo em que passaram desejando estarem juntos. E o que significa isso? O que significa viver essas relações depois do tempo da paixão, de todo aquele sonho e idealização? 

Uma das grandes contribuições de Lacan para psicanálise pós-freudiana é retirar a teoria psicanalítica do biológico e trabalhar com os papeis, com a linguística, com os símbolos e a estrutura. E uma de suas celebres frases é “não existe relação sexual” onde pode-se entender que na realidade nós não nos relacionamos com o outro (aquela pessoa ali, na nossa frente), nós nos relacionamos com o que fantasiamos a respeito dessas pessoas. Acontece que depois de tantos anos de uma relação é quase impossível você manter a fantasia do que você imagina que é a pessoa amada. A convivência é muita coisa mas também é bastante cruel. Ela te faz enxergar muita coisa, inclusive aquilo que você não imaginava ou pior: imaginava diferente. E como fica o amor e a relação quando você é colocado de frente com a realidade da pessoa que você se apaixonou? Quando você percebe que aquela pessoa que você se apaixonou nunca existiu e existe outra pessoa ali na sua frente? 

Os Beatles já cantavam em sua musica “I’m looking thought you”: 

I’m looking through you, where did you go? 

I thought I knew you, what did I know? 

You don’t look different, but you have change 

I’m looking though you, you’re not the same 

Para mim, eles estão falando desse momento da relação em que você se dá conta que ali, na sua frente, existe uma pessoa. É a pessoa que você se apaixonou, mas não é a pessoa que você se apaixonou. E pode ser por vários motivos: a pessoa se mostrou algo que não era, nós idealizamos excessivamente aquela pessoa ou simplesmente a pessoa mudou. Assim como nós mudamos. Felizmente. E então volto a questão inicial: como continua a relação quando cai essa idealização? 

Qualquer pessoa que está ou esteve em uma relação de longa data (e veja bem, não digo uma relação duradoura: o que significa algo ser “durador”?) se dá conta que só é possível sustentar a relação quando você se dá conta dessa mudança do outro (ou até mesmo nossa) e consegue elaborar esse luto. “Ok, ele não é o príncipe encantado que eu imaginei que ele seria… Mas amo a forma como a gente ri das coisas engraçadas um do outro” ou “Achei que ele fosse essa pessoa extrovertida e engraçada, mas adoro ver como ele fica tímido diante dos amigos”. E é através dessas pequenas quedas (que em psicanálise poderíamos chamar de “quedas narcísicas”) que existe uma oportunidade de ressignificar e reconhecer que embaixo de toda aquela idealização e expectativa que estava cobrindo a pessoa real pela qual nos interessamos. 

Jesse e Celine fazem isso maravilhosamente bem no último filme. Eles não sonham mais com a relação que teriam caso tivessem se encontrado 6 meses depois naquela estação de trem, eles estão nessa relação real, cheia dos pequenos defeitos de cada um, cheia das pequenas frustrações do que eles imaginaram que seria o outro, mas também uma relação completamente atravessada pela descoberta do que o outro realmente é. E uma descoberta nem sempre agradável, porém que no conjunto da obra do outro, faz total sentido.  

Uma das cenas mais maravilhosas do cinema é a cena do primeiro filme em que eles estão numa cabine de discos, um espaço pequeno para dois recém desconhecidos, sem intimidade ainda, escutando “Come Here” da Kath Bloom (inclusive, recomendo super o álbum dela “Finally”) e um tentando olhar para o outro enquanto evitam serem pegos no flagra nesse olhar. Um momento que provavelmente meu caro leitor você já passou: aquele momento do flerte em que você quer olhar para sua paquera, mas você não quer ser pego nesse olhar ao mesmo tempo que você quer ser pego. Essa cena só seria possível no começo de uma paquera e de um flerte. Eis que no último filme, depois de uma briga que podia ser o estopim do fim do relacionamento deles, a mesma cena é recriada: porém os dois estão brigados, com medo de terem falado demais, se mostrado demais e achando que era o fim. O olhar aqui não é mais de flerte, mas de medo: será que esse é o fim? Volta a ser uma das cenas mais lindas que já vi quando você consegue olhar com essas perspectivas das relações de longo prazo. Fico com aquela sensação de: você não é aquilo que imaginei, nem melhor, nem pior, mas diferente. E essa diferença, meus caros… é que o que vale a pena nos relacionamentos. 

Moved probably by the wave of revival that Sex And The City touched me in its new season, Just Like That, I decided to rewatch Before Sunrise, which took me to Before Sunset and, finally, to Before Midnight and how good it was. Reviewing these films years later, with so many years passed since their release and even since I watched them… It made me think about what I had already written here on the blog: relationships and idealisations. But this time with another bias: what happens after you find (and live) your great love?

Jesse and Celine (and luckily so am I) aren’t the same kids as the first movies. They are no longer those young people who met in a train car and made the decision to walk the streets of Vienna and for their own lives. Nor are they the young adults who met after so many years, bearing the marks not only of what they lived among them, but of their other relationships. In the last film of the trilogy, they are different: they are there, in that relationship they wanted for so long. Probably now more time together than the time they spent wishing they were together. And what does this mean? What does it mean to live these relationships after the time of passion, of all that dreaming and idealization?

One of Lacan’s great contributions to post-Freudian psychoanalysis is to take psychoanalytic theory out of the biological and work with roles, linguistics, symbols and structure. And one of his famous phrases is “there is no sexual relationship” where it can be understood that in reality we do not relate to the other (that person there, in front of us), we relate to what we fantasize about these people. It turns out that after so many years of a relationship it’s almost impossible for you to keep the fantasy of what you imagine the loved one to be. Living together is a lot but it’s also quite cruel. She makes you see a lot, including what you didn’t imagine or worse: imagined differently. And how is love and relationship when you are faced with the reality of the person you fell in love with? When do you realize that the person you fell in love with never existed and there is someone else right there in front of you?

The Beatles already sang in their song “I’m looking thought you”:

I’m looking through you, where did you go?

I thought I knew you, what did I know?

You don’t look different, but you have change

I’m looking though you, you’re not the same

For me, they are talking about that moment in the relationship when you realize that there, in front of you, there is a person. It’s the person you fell in love with, but at the same time, it’s not the person you fell in love with. And it can be for several reasons: the person turned out to be something they were not, we excessively idealize that person or simply the person has changed. Just like we change. Happily. And then I return to the initial question: how does the relationship continue when this idealization falls?

Anyone who is or has been in a long-term relationship (and mind you, I don’t mean a lasting relationship: what does it mean for something to be “lasting”?) realizes that it’s only possible to sustain the relationship when you realize this change of the other (or even ours) and manages to elaborate this mourning. “Okay, he’s not the Prince Charming I imagined he would be… But I love the way we laugh at each other’s funny things” or “I thought he was this outgoing, funny person, but I love seeing how he is shy in front of his friends.” And it is through these small falls (which in psychoanalysis we could call “narcissistic falls”) that there is an opportunity to resignify and recognize that underneath all that idealization and expectation that was covering the real person we are interested in.

Jesse and Celine do this wonderfully well in the last movie. They no longer dream of the relationship they would have had if they had met 6 months later at that train station, they are in this real relationship, full of each other’s small flaws, full of the small frustrations of what they imagined the other would be, but also a relationship completely crossed by the discovery of what the other really is. It’s a discovery that isn’t always pleasant, but one that, in the context of the other’s work, makes perfect sense.

One of the most wonderful scenes in the cinema is the scene from the first movie in which they are in a record booth, a small space for two new strangers, without intimacy yet, listening to “Come Here” by Kath Bloom (I highly recommend her album “Finally”) and trying to look at each other while avoiding being caught in that gaze. A moment that, my dear reader, you probably already have: that moment of flirtation when you want to look at your crush, but you don’t want to be caught in that look at the same time you want to be caught. This scene would only be possible at the beginning of a flirtation and flirtation. Behold, in the last film, after a fight that could be the trigger of the end of their relationship, the same scene is recreated: however, the two are fighting, afraid they have talked too much, showed too much and thinking it was the end. The look here is no longer one of flirtation, but of fear: is this the end? It goes back to being one of the most beautiful scenes I’ve ever seen when you can look at it from those perspectives of long-term relationships. I get that feeling of: you are not what I imagined, neither better nor worse, but different. And that difference, my dears… is what is worth in relationships.

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