Life Style/Estilo de Vida

A ilusão das comédias românticas / Romantic comedy gone wrong

Quem cresceu entre as décadas de 90/2000, como é o meu caso, provavelmente presenciou o boom das comedias românticas e acabou, de alguma forma, incorporando um pouco aquelas fórmulas amorosas de como devia acontecer uma linda história de amor. 

Era basicamente a mesma história com uma pequena variação vez ou outra: o par romântico se conhecia, muito despretensiosamente, se desenvolvia uma história de vários encontros e desencontros que ao longo do tempo ia virando mais encontro até que um grande desencontro acontecia e era necessário que uma das partes fizesse algo grandioso para provar seu amor e os dois viviam felizes para sempre. De alguma forma, essa “fórmula” foi sendo incorporada por vários da minha geração (bom, eu fui) e já virava um roteiro onde qualquer relação amorosa devia seguir. Obviamente não era exatamente tudo, mas envolvia muito a “despretensão” e a “prova de amor grandiosa”. Muita busca amorosa partiu desse roteiro e ele era usado como peneira para as relações amorosas, então o candidato do amor da vida tinha uma série de tarefas que devia cumprir, além de um checklist extenso de atributos. 

Qual foi a minha surpresa (talvez de muitos de nós) quando descobri que aquela fórmula não estava dando certo e eu não estava conseguindo viver minhas lindas histórias de amor como nos filmes? O que eu estava fazendo de errado? Ou melhor: o que o outro estava fazendo de errado? Por que o outro se recusava a seguir aquele roteiro tão simples?


Foi depois de muito sacrifício e elaboração (e análise também) que me dei conta do que (devia ser) o óbvio: que ali do outro lado existia uma outra pessoa. E essa outra pessoa provavelmente tinha expectativas assim como eu e que muitas delas talvez fossem diferente das minhas. Se tivéssemos sorte, nos melhores dos casos, as expectativas eram compatíveis e em algum momento ela se encontrariam e criariam um efeito positivo. Em outros momentos, nem tanto. 

O escritor japonês Haruki Murakami, no seu livro “Minha querida Sputnik” (meu livro favorito, inclusive) usa uma alegoria acho muito bonita: ele fala que nós somos como os satélites que viajam em suas órbitas separadas, vagando pelo espaço e que algumas vezes essas orbitas se cruzam e então podemos estar juntos, e talvez até abrir nossos corações. E quando essas órbitas se cruzam, talvez seja mais fácil de nos conectarmos quando essas expectativas estejam alinhadas. Ou pelo menos que esteja claro o que é expectativa.  

A questão não está em fantasiar, mas saber identificar o que é fantasia e o que pode ser real. “A idealização, disciplinar e normativa do que vem a ser uma história de amor é um dos piores inimigos da experiência amorosa em nossa época” diz o psicanalista Christian Dunker.  

Não é ruim, por si só, termos idealizado o que esperamos de uma relação. Aliás, de qualquer relação. Particularmente não acredito em quem diz que não cria expectativas. Sem elas, a gente não chegaria na esquina. São as expectativas  que nos movem (no caso, o desejo, mas isso é para outro texto). É a partir da idealização que nos construímos como sujeitos, como construímos aquilo que acreditamos ser nossa história. O ponto é justamente quando essa expectativa, essa idealização vira um espaço limitado em que o outro deve caber ali e agir de uma determinada forma.  

Só é possível haver relação quando há espaço para o outro. É nas alteridades que as relações se constroem e só com ela é que é possível seguir. Caso contrário, estaremos sempre nos relacionando com a nossa fantasia.  

Those who grew up between the 90s/2000s, as is my case, probably witnessed the boom in romantic comedies and ended up, somehow, incorporating a little of those love formulas of how a beautiful love story should happen.

It was basically the same story with a slight variation every now and then: the romantic couple knew each other, very unpretentiously, a story was developed consisting of various encounters and ‘mis encounters’ that over time became more encounters until a big disagreement happened and it was necessary that one of the parties took a leap, a grand gesture, to prove their love and finally the two would live happily ever after. Somehow, this “formula” was incorporated by several people of my generation (well, it happened to me) and it was ready to go script that any love relationship should follow. Obviously it wasn’t exactly everything, but it often consisted a lot of “unpretentiousness” and the “grand love gesture”. A lot of love quest came out of this script and it was used as a sieve for love relationships, so the love-of-your-life candidate had a series of tasks to complete, in addition to an extensive checklist of attributes.

What was my surprise (maybe many of us) when I found out that the formula wasn’t working and I wasn’t able to live my beautiful love story like in the movies? What was I doing wrong? Or rather: what was the other part doing wrong? Why did the other part refuse to follow a simple script?

It was after much sacrifice and elaboration (and therapy too) that I realized (what should be) the obvious: that there was another person on the other side. And this other person probably had expectations just like me and that many of them might be different from mine. If we were lucky, at best the expectations were compatible and at some point it would meet and create a positive chain effect. At other times, not so much.

Japanese writer Haruki Murakami, in his book “My dear Sputnik” (my favorite book, btw) uses an allegory that I think is very beautiful: he says that we are like satellites that travel in their separate orbits, wandering through space and that sometimes these orbits intersect and then we can be together, and maybe even open our hearts. And when these orbits cross, it might be easier to connect with others, when those expectations are aligned. Or at least when it is clear that it is all about expectations.

The issue is not fantasizing, but knowing how to identify what is fantasy and what can be real. “The idealization, discipline and regulation of what a love story should be, is  one of the worst enemies of the love experience in our time” says psychoanalyst Christian Dunker.

It’s not bad, in itself, that we have idealized what we expect from a relationship. In fact, in any relationship. I don’t particularly believe in those who say they don’t have expectations. Without expectations, we wouldn’t go the supermarket. The expectations move us (in this case, the desire, but that something for another article). It is from the idealization that we build ourselves as subjects, and how we build what we believe to be our history. The point is precisely when this expectation, this idealization becomes a limited space in which the other must fit in and act (in a certain way).

It is only possible to have a relationship when there is space for the other person. It is in otherness that relationships are built and only in it that it is possible for them to go on. Otherwise, we will always be relating to our fantasy.

*Images: its petski

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