Inspo/Inspiração Life Style/Estilo de Vida

Hormoniza-se a corpa / Hormonizing (Harmonizing!) the body

Celebro meus sete primeiros meses de hormonioterapia daqui a uns dias. E que sete meses intensos, belos e reveladores! O corpo que me involucrava não existe mais e com ele vejo também mudar minha postura, minha saúde mental e a minha compreensão de mim mesma. A Lulu de hoje se sente mais confiante, pois a disforia que em mim habita se mitiga a cada pílula de estrogênio e de bloqueador de testosterona ingerida.

A imagem que vejo refletida no espelho finalmente se aproxima daquela que, mesmo inconsciente, sempre portei em mim; aquela que sempre fui se está fazendo visível a outres num movimento empoderador, caótico e feminino.

À medida que as minhas curvas salientam-se sob meus vestidos e bustiês, olhares cis me violentam. Olhares e comentários que tentam me despir, me entender, me analisar flagelam-me até que não se aviste mais minha forma nas ruas. Contudo um misto de interesse e atração funde-se a essa violência. Não nos podem amar, mas que o querem em seu âmago, isso querem!

Apesar dos apesares, me sinto em plena conexão com a minha corpa volátil que pouco a pouco se recria. Nesse processo de assolação do antigo corpo que tive que habitar, mas que jamais foi meu, faço nascer, das ruínas desse menine, flores. Tal como as de Drummond, elas furam o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Em movimentos cambiantes, porém seguros e exatos, sigo nessa infinda caminhada transcorpórea, às vezes de picumã até as ancas, às vezes de desmedidas unhas fluorescentes, às vezes desnuda de qualquer adereço. Vivo as dores, as alegrias, os prazeres e o desconforto de ser uma travesti migrante. E o faço, orgulhosamente!

I celebrate my first seven months of hormone therapy in a few days. And what an intense, beautiful and revealing seven months! The body that used to wrap me no longer exists, and with it I also see my posture, my mental health, and my understanding of myself changing. Lulu of today feels more confident, because the dysphoria that dwells in me is mitigated with every estrogen pill and testosterone blocker ingested.

The image I see reflected in the mirror is finally approaching the one that, even unconsciously, I have always carried within me; the one I have always been is making herself visible to others in an empowering, chaotic, and feminine movement.

As my curves stand out under my dresses and bustiers, cis-gazes violate me. Looks and comments that try to undress me, to understand me, to analyze me, plague me until my shape can no longer be seen on the streets. Yet a mixture of interest and attraction merges with this violence. They can’t love us, but they want it in their core, that’s what they want!

In spite of the hardships, I feel in full connection with my volatile body that little by little recreates herself. In this process of destruction of the old body that I had to inhabit, but which was never mine, I give birth to flowers, from the ruins of this little boy-ish figure. Just like Drummond’s – a Brazilian literary force – my flowers also pierce the asphalt, the boredom, the disgust and the hate.

In changing movements, but safe and exact, I follow this endless transcorporeal walk, sometimes with my hair up to my hips, sometimes with unmeasured fluorescent fingernails, sometimes stripped of any adornment. I live the pains, the joys, the pleasures, and the discomfort of being a migrant travesti. And I do it, proudly!

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