Interview/Entrevista Life Style/Estilo de Vida

Valentina No País Das Putarias/Valentina In Sexland

Valentina é uma paulistana bizarra que amo de paixão com quem sempre falo de piercings, tattoo e sexo. Falar com ela sobre os nossos corres sempre é um prazer. Ítalo-brazuca em Montreal há um bom tempo que faz magia com sua câmera. Conversamos, em um dia geladíssimo, porém regado a cidra e envelopado por batatinhas, sobre seu trajeto enquanto uma trabalhadora do sexo. Espero que gostem do nosso troca-troca.

Valentina is a bizarre girl from São Paulo that I love and with whom I always talk about piercings, tattoo and sex. Talking to her about our dramas is always a pleasure. Italo-Brazilian in Montreal for a long time who does magic with her camera. We talked, on a very cold day, but with cider and chips, about her journey as a sex worker. I hope you enjoy our exchange.
(ENGLISH VERSION BELOW)

Lu (Para Miranda): Tava pensando enquanto tava me arrumando em casa, o que vou perguntar pra essa vagabunda? Gente, primeira coisa, se descreva em poucas palavras. Sei que é vasto pra caramba, mas vamos.
Valentina (Val): Tenho lua em gêmeos e tenho dificuldades em usar poucas palavras.

Lu: Quem és tu?
Val: Meu nome é Valentina, atualmente uso Fellina como sobrenome. Tenho 35 anos. Nascida em SP. Minha mãe é italiana, meu pai, brasileiro. Morei na Itália quando era pequena. Voltei pro BR com 5 anos. Essa multiculturalidade me representa bem. Sempre me mudando desde cedo. Morei em SP a grande parte da minha vida, morei também no interior por um tempo. Música sempre foi minha paixão, porém a vida é muito louca e em certo momento, vim pro Canadá. Tinha 29 anos. Vim pra ficar em Montreal. Quando a gente chega, a gente faz uns bicos aqui e ali e acabei caindo no “camming”. 

Lu: E você não tinha experiência antes nesta indústria?
Val: Nenhuma. Eu tinha interesse, digamos assim. O que eu tinha feito, que de alguma forma está relacionado, no Brasil, é a fotografia boudoir, né. Atualmente não trabalho tanto. Aliás, não trabalho at all. Apresentei o Papo calcinha por uma temporada na Multishow também.

Lu: Rodada você, né?! Bem rodada.
Val: Eu sempre tive esse interesse no sensual, no erótico. Tinha um blogue. Chegando aqui, comecei com “camming”. Fazia uma sessão. Nossa, tô contando a história da minha vida!

Lu: Não, vai! E olha que só fiz uma pergunta lol Mas ta ótimo.
Val: Comecei assim no mundo do sex work.

Lu: E aqui, em Montreal, tem uma proposta burlesca, feminista. Mulheres com atitude, né? 
Val: Sim. É conhecida até pelo feminismo. A cena do circo, do burlesco é imensa. Aí, a gente tem a cena kinky. Essas cenas se conversam.

Lu: E como você se vê nessa intersecção toda?
Val: Definitivamente, não sou uma pessoa do circo. Eu curto o burlesco, mas não que eu seja dessa cena. Me interessa bastante. Acho incrível.

Lu: Vamo falar de dinheiro. Financeiramente, quanto você fazia, malemá, no início enquanto cam girl?
Val: Não fazia muito. Uma coisa a se esclarecer, eu fazia “camming” numa sessão específica de um site que se chamava “friends and romance”. Era uma sessão em que não tinha nudez explícita. Então, tinha muito menos gente acessando, mas existia uma audiência. As pessoas tinham essa fantasia e sentiam tesão em tentar fazer aquela menina se desnudar.

Lu: É todo um jogo de dominação, né?! 
Val: E se tem essa crença que as pessoas trabalhadoras do sexo têm esse apetite sexual absurdo. Elas querem transar com todes. O tempo inteiro. E muitos clientes acreditam nisso e te tratam diferente.

Lu: Eles pensam que você está trabalhando como cam girl por desespero. Você não escolheu estar ali, né? Onde já se viu, uma pessoa livremente escolher isso?! Que saco! Cansei. Só me paga e fica quieto. Amore, quantas horas por dia você trabalhava?
Val: O ideal é ficar online o dia todo. Eu fiz quase que um ano no site, porque tinha um pouco de receio. Tinha medo dos vídeos caírem em sites de pornografia. De perder o controle da minha imagem. Minha família não sabia. Não queria que tivessem uma visão minha como se fosse a vítima. Eu estava me redescobrindo sexualmente através essa experiência.

Lu: O questionamento seu começou então no final da sua experiência como cam girl, versão pudor[1]?
Val: Acho que logo no início. Eu comecei a me interessar por BDSM, fetiches. Eu não entendia nada sobre isso antes. Nem tinha ouvido falar. De repente, os clientes me perguntavam: Você faz JOI (jerk off instructions)? SPH (small penis humiliation)? E eu jogando no Wikipédia pra ver o que era.

[1]  Alcunha carinhosa que dei ao camming sem nudez

Lu: Ai, que pecado! Você conhecia pessoas do camming? Você saía com pessoas desse mundo “underground”?
Val: Sim, eu estava começando a me abrir. Tinha uma pessoa que me ajudou bastante, me instruiu bastante. Ela fazia escorting service. Eu passei a sentir orgulho do que fazia. É um universo tão fascinante.

Lu: Eu te conheci nessa época. Você já falava abertamente do que fazia. A imagem que você emana é dessa ativa, da pessoa que possui o controle, que eu amo. Depois que comecei a abraçar a minha identidade trans não-binária e brincar com o meu corpo, meu cabelo, minhas tatuagens, foi quando eu senti mesmo o poder da imagem que a gente passa pelo nosso corpo. A diferentona da fexxxta.
**(Pausa pra conversa sobre o impacto da instituição religiosa sobre nossas corpas enquanto tomamos uma cidra)
Lu: Gata, eu quero saber quando você deixou o camming pra trabalhar como stripper?
Val: Chegou um momento em que o site em que eu trabalhava despencou. Não tinha mais gente. Sou uma pessoa que gosta de ficar na sua bolha, não sou muito de contato físico e aqui no Québec, a dança é com contato físico. As regras mudam de acordo com a província aqui no Canadá. Finalmente, decidir ir a um clube de stripper com amigos e foi aí em que me senti confortável pra tentar. Cheguei no clube e não sabia de nada. Vi uma dançarina que se parecia comigo e resolvi conversar com ela. Tava procurando por ela no clube e o segurança me vira e pergunta: Você quer trabalhar aqui? E eu: Quero. Tava sem dinheiro, por causa do site que tava morrendo. Fui pro clube uns dias depois pra já dançar no palco. Saí do palco extasiada. AMEI!

Lu: Numa noite lotada, quantas meninas dançavam pra quantos clientes, mais ou menos?
Val: Esse clube não tinha muito controle, mas fácil de 30 – 50 meninas. Tinha até disputa entre as meninas quando percebíamos que um cliente tinha grana. Todas o queriam.

Lu: E como é se relacionar com outras pessoas sendo uma trabalhadora da indústria do sexo?
**(Pausa pra falar de todas as vitaminas e drogas que tomamos durante o inverno canadense e o causo da melatonina em pleno turno)
Val: Minha energia estava sempre drenada depois dos turnos. Eu sempre sou a sexóloga do grupinho. Precisa-se muito dos limites bem desenhados nas relações, já que eu trabalhava, por exemplo, com fetiches de outras pessoas que só eram clientes. Pode haver ciúmes do parceiro.

Lu: E você conseguia se distanciar de tudo isso ou você era tomada por tudo isso? Tipo, quem era você? Existia uma Valentina fora dessa esfera?
Val: O meu trabalho tomava muito espaço na minha vida e muitas vezes as linhas eram tênues. O pessoal se misturava com o profissional. Tinha uma interferência, uma invasão sim na minha vida fora do clube.

Lu: Posso te perguntar como você entende seu corpo, sua identidade de gênero, sua sexualidade?
Val: Sou uma mulher CIS, na verdade estou bem no andrógino. Entre a mulher CIS e o andrógino. Mas bem fluido.

Lu: Amore, muito obrigade pelo papo. Amei!
Val: Poderia ficar gravando aqui umas dez horas ❤


Vi uma dançarina que se parecia comigo e resolvi conversar com ela. Tava procurando por ela no clube e o segurança me vira e pergunta: Você quer trabalhar aqui? E eu: Quero. Tava sem dinheiro, por causa do site que tava morrendo. Fui pro clube uns dias depois pra já dançar no palco. Saí do palco extasiada. AMEI!

I saw a dancer that looked like me and decided to talk to her. I was looking for her in the club and the bouncer turns to me and asks: Do you want to work here? And I said: Yes. I had no money, because of the site that was dying. I went to the club a few days later to dance on stage. I left the stage ecstatic. I LOVED IT!

Valentina Fellina

Lu (For Miranda): I was thinking while I was getting ready at home, what am I going to ask this bitch? First things first, describe yourself in a few words. I know it’s really vague, but let’s go.
Valentina (Val): I have Gemini moon and I have trouble using a few words.

Lu: Who are you?
Val: My name is Valentina, I currently use Fellina as my last name. I am 35 years old. Born in SP. My mother is Italian, my father Brazilian. I lived in Italy when I was little. I came back to Brazil when I was 5 years old. This multiculturalism represents me well. I’ve always moved around from an early age. I’ve lived in SP for most of my life, and also lived in the countryside for a while. Music was always my passion, but life is very crazy and at a certain moment I came to Canada. I was 29 years old. I came to stay in Montreal. When you arrive, you do a few jobs here and there, and I ended up in “camming”. 

Lu: And you had no experience before in this industry?
Val: None. I had an interest, let’s say. What I had done that is somehow related, in Brazil, is boudoir photography. Nowadays I don’t work that much. In fact, I don’t work at all. I hosted Papo calcinha for a season on Multishow as well.

Lu: You have been around, haven’t you? Pretty spunky.
Val: I always had this interest in the sensual, the erotic. I had a blog. When I got here I started camming. I would do a session. Wow, I’m telling my life story!

Lu: No, go on! And I only asked one question, lol But that’s great.
Val: That’s how I started in the world of sex work.

Lu: And here, in Montreal, we have a burlesque, feminist vibe. Women with attitude, right? 
Val: Yes, it’s known even for feminism. The circus scene, the burlesque scene is huge. Then we have the kinky scene. These scenes talk to each other.

Lu: And how do you see yourself in all this intersection?
Val: I am definitely not a circus person. I enjoy burlesque, but not that I am from that scene. It interests me a lot. I think it’s incredible.

Lu: Let’s talk about money. Financially, how much did you make, more or less, in the beginning as a cam girl?
Val: Not much. One thing to be clear, I was camming in a specific section of a website that was called “friends and romance”. It was a session where there was no explicit nudity. So there were far fewer people logging in, but there was an audience. People had this fantasy and had a hard-on for trying to get that girl to strip.

Lu: It’s a whole domination game, isn’t it? 
Val: And there is this belief that sex workers have this absurd sexual appetite. They want to have sex with everyone. All the time. And a lot of clients believe that and treat you differently.

Lu: They think you are working as a cam girl out of desperation. You didn’t choose to be there, did you? Who ever heard of a person freely choosing to be there? What a drag! I’m done. Just pay me and be quiet. Amore, how many hours a day did you work?
Val: The ideal is to stay online all day. I did almost a year on the site, because I was a little afraid. I was afraid that the videos would fall into porn sites. Of losing control of my image. My family didn’t know. I didn’t want them to see me as the victim. I was rediscovering myself sexually through this experience.

Lu: Did your questioning begin then at the end of your experience as a cam girl, the shameless version[1]?Val: I think right at the beginning. I became interested in BDSM, fetishes. I didn’t understand anything about it before. I hadn’t even heard of it. Suddenly, clients would ask me: Do you do JOI (jerk off instructions)? SPH (small penis humiliation)? And I would look it up on Wikipedia to see what it was.

[1] Affectionate nickname I gave to nudity-free camming

Lu: Oh, poor thang! Did you know people from camming? Did you hang out with people from this “underground” world?
Val: Yes, I was beginning to open up. There was one person who helped me a lot, instructed me a lot. She would do escort service. I started to feel proud of what I was doing. It is such a fascinating universe.

Lu: I met you at this time. You already spoke openly about what you did. The image that you emanate is this active, in control person, which I love. After I started to embrace my non-binary trans identity and play with my body, my hair, my tattoos, that’s when I really felt the power of the image that we pass through our body. The weird and cool gal at the party.
**(Pause for conversation about the impact of the religious institution on our bodies while having a cider)
Lu: Girl, I want to know when you left camming to work as a stripper?
Val: There came a time when the site I was working on went downhill. There were no more people. I am a person who likes to stay in their bubble, I am not much for physical contact and here in Quebec, dancing is with physical contact. The rules change according to the province here in Canada. Finally, I decided to go to a stripper club with friends and that’s when I felt comfortable to try it. I arrived at the club and didn’t know anything. I saw a dancer that looked like me and decided to talk to her. I was looking for her in the club and the bouncer turns to me and asks: Do you want to work here? And I said: Yes. I had no money, because of the site that was dying. I went to the club a few days later to dance on stage. I left the stage ecstatic. I LOVED IT!

Lu: On a crowded night, how many girls danced for how many clients, more or less?
Val: This club didn’t have much control, but it was easy to get 30 – 50 girls. There were even disputes among the girls when we realized that a client had money. They all wanted it.

Lu: And what is it like to relate to other people as a sex worker?
**(Pause to talk about all the vitamins and drugs we took during the Canadian winter and the melatonin story in the middle of the shift)
Val: My energy was always drained after my shifts. I am always the group sexologist. You really need well-drawn boundaries in relationships, since I worked for example with other people’s fetishes who were only clients. There can be jealousy from the partner.

Lu: And were you able to distance yourself from all this or were you taken over by it all? Like, who were you? Was there a Valentina outside of that sphere?
Val: My work took up a lot of space in my life and often the lines were blurred. The personal was mixed with the professional. There was an interference, an invasion in my life outside the club.

Lu: Can I ask you how you understand your body, your gender identity, your sexuality?
Val: I am a CIS woman, actually I am quite androgynous. Between CIS woman and androgynous. But very fluid.

Lu: Amore, thank you very much for the chat. I loved it!
Val: I could record for like ten hours here ❤


Photos: Valentina Fellina

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