Life Style/Estilo de Vida

Transcendente Deslumbre / Transcendental Dazzle

Sobretudo verde musgo revelando apenas uma frestinha das minhas canelas. Deambulo ao sol tímido de início de primavera que banha meu coque acobreado e minha tez reluzente. Caminho, com mãos nos bolsos e essas em punho fechado, chego até a marcar as palmas por causa da unha comprida. Insolitamente descoradas. 

Mirada baixa que se concentra no ritmo dos meus pés e se ergue vez ou outra, num gesto curioso, procurando o olhar do outro. Quase que fitando por uns quatro segundos a mais, do que é socialmente permitido, o olhar fugaz do outro que me atravessa. Esses quatro segundos, infindos, são capazes de estampar no outro o meu sorriso de bom dia, a minha lascívia de semanas acumuladas e a minha revolta de corpa migrante.

Tiro meus fones de ouvido e aceno a uma amiga do outro lado da calçada, essa do lado gelado e sombroso da rua. Ela tira a máscara de sobre a metade da sua cara e me oferta o sorriso que não via desde junho passado. Tantas águas rolaram. Aproximo-me dela e compartilho da minha vivência, da qual por vaidade minha ela foi virtualmente bloqueada. Como somos tão palermas, por vezes. Digo-lhe que venho há muito refletindo sobre a minha relação com o meu corpo, que tenho lido sobre materialidade e discurso dos corpos e que principiarei um tratamento hormonal. E ela, como que em conexão hermética, me diz que há quatro meses, também infindos, começou seu bloqueador de testosterona e a ingerência de estrogênio. A diferença entre nós é que a mim me celebram meus pais. Minha mãe me agradeceu por sem quem sou, e senti honestidade em sua asserção. A ela, sua transidentidade é barrada por uma grossa gaze sob a camisa. Mamas que não se atrevem a se despontar. Barba cada vez mais rala, gordura redistribuída outramente, pele afinada que pai e mãe refutam reparar. 

Pergunto se poderia lhe dar um abraço e ela aquiesce. Envelopadas nos braços uma da outra com um sol que parecia enfim nos aquecer, reitero que não estará só em seu tratamento e que agora estamos conectadas em um nível poderosíssimo, fazemos parte uma da outra. Irmãs de dosagens diferentes. Te amo

A moss-green overcoat revealing only a small fringe of my shins. I wander in the shy sun of early spring that bathes my coppery coif and my glistening complexion. I walk, with my hands in my pockets and those in a closed fist, I even mark my palms because of my long fingernails. Insolidly discolored. 

A low look that concentrates on the rhythm of my feet and rises every now and then, in a curious gesture, seeking the other’s gaze. Almost staring for four seconds longer than is socially allowed, the fleeting glance of the other that crosses my path. These four seconds, infinite as they are, are capable of stamping on the other my good morning smile, my lust accumulated for weeks, and my revolt as a migrant body.

I take off my headphones and wave to a friend on the other side of the sidewalk, she is on the cold, dark side of the street. She removes the mask from over half her face and offers me the smile I haven’t seen since last June. So much water has rolled down. I approach her and share my experiences, from which by my vanity she has been virtually blocked. We are such jerks sometimes. I tell her that I have been thinking for a long time about my relationship with my body, that I have been reading about the materiality and discourse of bodies, and that I will begin hormone treatment. And she, as if in a hermetic connection, tells me that four months ago, infinite as they are, she started her testosterone blocker and estrogen intake. The difference between us is that I am celebrated by my parents. My mother thanked me being who I am, and I felt honesty in her assertion. To her, her transidentity is barred by a thick gauze under her shirt. Boobs that dare not emerge. An increasingly thinning beard, fat redistributed differently, thinned skin that father and mother refuse to notice. 

I ask if I could give her a hug and she agrees. Wrapped in each other’s arms with a sun that seemed to warm us at last, I reiterate that she is not alone in her treatment and that we are now connected on a very powerful level, we are part of each other. Sisters of different dosages. I love you

Image: Photo by Joanna Kosinska on Unsplash

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